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Estavam todos ali. Paralisados. Perplexos. Ainda não se sabia o que realmente havia motivado toda aquela merda. Ossos e dentes quebrados, focinhos e barrigas e olhos sangrando, rabos dilacerados, tufos de pelos espalhados em tudo e os gemidos. Isso era o que mais impressionava. Salvo um ou outro corpo inerte de cachorro morto, os demais gemiam num coro doloroso e aparentemente sem fim, como se fizessem uma prece, um pedido desesperado pro deus dos cachorros fodidos pra que acabasse com a dor de forma rápida. Mas parece que ele não ouvia. A situação toda já durava dois dias e ninguém arredava o pé. Na verdade, com o passar dos minutos, mais e mais gente se aproximava. Era uma proporção desigual. Se trezentos e trinta e sete cachorros no campo estavam, 4521 pessoas os observavam. E se por acaso mais um cachorro chegasse ali, por engano, traria junto mais 23 pessoas ou mais 47 pessoas e mais um cachorro ou mais 135 pessoas e mais dois cachorros e mais 20 crianças. E as pessoas os olhavam nos olhos. E eles como se soubessem exatamente o porquê de toda a massa de seres humanos estar ali os olhavam de volta, fixamente. Vez ou outra a cada 5 minutos trocavam de olho. E gemiam. Aos poucos os cheiros das carcaças em decomposição dos poucos que sucumbiram tomou conta do ambiente. Cada um no chão cheirava um cheiro. Cada um de pé cheirava um cheiro. Aos poucos os poucos se tornaram muitos. Aos poucos o desejo de todos foi se tornando realidade. E não havia muito mais força nos cães para gemidos, agora, só um pouco. E ninguém falava nada, ainda, só ouvia.
Após a chuva que veio lavar o campo daquele combate no quarto dia, os poucos, agora, vivos nem gemiam mais. Em questão de minutos após o fim da chuva um por um dos presentes começou a deixar o gramado, agora lama. E quando sobrou só um cachorro olhando pra só um humano, o cachorro latiu. Agora tinha acabado e o humano podia ir. E ele foi.


